Camaradas, reproduzo aqui e-mail enviado à Rafael Saddi, autor do referido texto. Faço isto por acreditar que tais notas tem relevância no avanço do debate. Gostaria que antes de fazer a leitura desta mensagem @s compas lessem o texto original, pois meus escritos são um desdobramento de minha leitura do texto e a contextualização da totalidade das afirmações é fundamental para o entendimento de minha mensagem.
Sem mais delongas, segue abaixo o e-mail transcrito totalmente.
Olá Rafael,
Eu me chamo Rubens, moro em Gaspar - SC e recentemente aderí ao Movaut.
Seu texto está muito bem escrito e revela todo o processo de burocratização e mercantilização oriundo das relações de produção, que por sua vez se generalizou ao conjunto das relações sociais, mostrando como se desenvolve a exploração e dominação da burocracia sob o proletarido na égide do capitalismo de estado em Cuba.
Entretanto, gostaria de assinalar algumas questões que entendo que dificultam a compreensão daquele que possui um avanço em sua forma de consciência (seja esta ainda contraditória ou já revolucionária, expressando os interesses históricos e a perspectiva do proletariado revolucionário), ou mesmo do leitor comum em busca de novos elementos para superar os valores, sentimentos, concepções e todo o arcabouço ideológico bombardeado todos os dias pelas classes dominantes.
Em seu texto você alterna a categoria "dirigentes comunistas", "dirigentes revolucionários", "administradores" e "gestores/burocratas", para designar a classe dominante em Cuba. Estas quatro designações são em sua totalidade e especificações totalmente antagônicas, visto que @s comunistas e/ou revolucionári@s utilizam seus diversos esforços no sentido de contribuir para a auto-organização do proletariado, a autogestão das lutas pela própria classe proletária, a produção teórica e ações cotidianas que buscam denunciar e criticar radicalmente os valores, sentimentos, concepções, em suma, as ideologias produzidas pelas classes dominantes (produzidas para a burguesia por suas classes auxiliares, burocracia e intelectualidade). Já @s dirigentes, como o próprio nome sugere, sejam eles precedidos de quaisquer conotações políticas (comunistas, socialistas, sindicalistas, etc.) são expressão da relação fundamental de um modo de produção assentado em antagonismos de classes, a relação dirigentes/dirigid@s, e no plano da produção são uma fração da burocracia, classe auxiliar da burguesia que possui um projeto político próprio, a CONTRA-REVOLUÇÃO BUROCRÁTICA, que por meio insurrecional (tomada ou golpe de estado), instaura ou o capitalismo de estado ou o modo de produção que lhe é correspondente, o burocrático - que pode vir a surgir no caso de um desenvolvimento máximo das forças produtivas ou automatização total do processo produtivo, que tornaria desnecessário o trabalho assalariado/alienado, abolindo a "lei" do valor -. O termo gestores foi denunciado por Edmilson Marques no número anterior da Revista (texto "Capitalismo e Teoria dos Gestores") onde o autor revela que tal conceito, cunhado por João Bernardo, por mesclar ora as funções desempenhadas pela burocracia, ora as funções desempenhadas pela burguesia no processo produtivo, e por consequencia erigir uma categoria não existente para explicar a realidade concreta, posto que estamos numa fase de desenvolvimento do capitalismo onde a burocracia organiza os espaços de trabalho e o burguês enquanto proprietário individual está sendo superado, sem contudo haver um mínimo de transformação nas relações de produção e por conseguinte nas relações de classes em luta, serve para amortecer os conflitos entre as classes fundamentais do capitalismo - burguesia e proletariado - e colabora para que o capital continue se reproduzindo.
Dito tudo isto, gostaria de assinalar que em Cuba quem gere a produção e reprodução da vida, através da exploração, dominação e opressão do conjunto do proletariado é a BUROCRACIA ESTATAL e não todas estas categorias que você mencionou e não se deu ao trabalho de especificar, ao não revelar seu conteúdo, fato este que contribuiría para o processo de entendimento de seu texto e evitaria ambiguidades e interpretações equivocadas.
Outra questão é o uso das citações de Marx, dando a entender que este defenderia a estatização dos meios de produção e um definhamento do estado através de tal medida. Aqui é preciso assinalar que Marx reformulou suas teses após a Comuna de Paris (primeira tentativa de revolução proletária e experiência autogestionária da humanidade), descartando tal medida (estatização dos meios de produção) e passando a defender o autogoverno d@s produtor@s livremente associad@s, ou seja, a autogestão social. Sua citação final de Bakunin me parece uma espécie de "argumento de autoridade", pois em momento algum você discorre sobre o que seria a ditadura do proletariado (que nada mais é do que a classe revolucionária em armas defendendo sua revolução autogestionária e repelindo os resquícios contra-revolucionários, vindos tanto da burguesia quanto da burocracia, que se fará presente através dos partidos e sindicatos, etapa esta que possui um papel fundamental na passagem do capitalismo ao modo de produção comunista/autogestionário) regredindo séculos teoricamente ao confundir ditadura do proletariado com ditadura do partido e/ou estado.
Cabe ressaltar que a observação "profética" de Bakunin é totalmente correta e tinha toda validade no período da luta de classes no qual ela foi realizada, pois naquele contexto Marx ainda defendia a estatização do meios de produção.
A burocracia partidária, em especial sua vertente bolchevista, mutilou e deturpou o marxismo (que é a expressão teórica do movimento revolucionário do proletariado), usando-o como ideologia na manutenção e reprodução do capitalismo estatal. Uma das provas disto foi o mascaramento do avanço de Marx em suas formulações. Foi o aconteceu na URSS e acontece em Cuba, país alvo do seu estudo.
Encerro minha mensagem frisando que as palavras e conceitos têm importância fundamental na luta de classes, de modo que devemos sempre fazer uma crítica desapiedada do existente, o que significa ter total clareza dos termos e elementos a serem utilizados, principalmente quando se objetiva partir da perspectiva do proletariado revolucionário.
Saudações revolucionárias,
Rubens Vinícius da Silva.
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