O SINDICALISMO
Anton Pannekoek
De que modo deve a classe operária lutar para vencer o capitalismo?
É esta a questão primordial que se coloca todos os dias aos
trabalhadores. Quais os meios de acção eficazes e quais as tácticas
que necessitarão de empregar para conquistar o poder e vencer o
inimigo? Não existe nenhuma ciência ou teoria que lhes possa
indicar com precisão o caminho a seguir. É tacteando, deixando
exprimir o seu instinto e a sua espontaneidade que encontrarão o
caminho. Quanto mais o capitalismo se desenvolve e se propaga por
todo o mundo, maior é o poder dos trabalhadores. Novos modo de
acção mais apropriados vêm juntar-se aos antigos. As tácticas da
luta de classes têm necessariamente de se adaptar à evolução
social. O sindicalismo surge como a forma primitiva do movimento
operário num sistema capitalista estável. O trabalhador
independente não tem defesa face ao patrão capitalista. Por isso os
operários se organizaram em sindicatos. Estes reúnem os operários
na acção colectiva e utilizam a greve como arma principal. O
equilíbrio do poder fica assim mais ou menos realizado; acontece
mesmo inclinar-se mais fortemente para o lado dos operários, de tal
modo que os pequenos patrões isolados se vêem impotentes perante os
grandes sindicatos. É por isso que, nos países em que o capitalismo
está mais desenvolvido, os sindicatos de operários e de patrões
(sendo estes as associações, os trusts, as sociedades etc.) estão
constantemente em luta.
Foi na Inglaterra que nasceu o sindicalismo paralelamente aos
primeiros vagidos do capitalismo. Em seguida estender-se-ia aos
outros países, como fiel companheiro do sistema capitalista.
Conheceu condições particulares nos Estados Unidos, onde a
quantidade de terras livres a desabitadas que se oferecia aos
pioneiros escoou a mão-de-obra para fora das cidades; como
consequência, os operários obtiveram salários elevados e condições
de trabalho relativamente boas. A Federação Americana do Trabalho
constituía uma verdadeira força no país e a maior parte das vezes,
foi capaz de manter um nível de vida suficientemente elevado entre
os operários que nela estavam filiados.
Em tais condições a ideia de derrubar o capitalismo não podia
germinar no espírito dos trabalhadores americanos. O capitalismo
oferecia-lhe uma existência estável e fácil. Não se consideravam
como uma classe à parte cujos interesses fossem opostos à ordem
existente; eram parte integrante dela e estavam conscientes de
poderem ter acesso a todas as possibilidades que lhes oferecia um
capitalismo em desenvolvimento num novo continente. Havia espaço
suficiente para acolher milhões de indivíduos, europeus na sua
maioria. Era preciso oferecer a esses milhões de colonos um
industria em expansão na qual os operários, dando mostras de
energia e de boa vontade, poderiam elevar-se à categoria de
operários livres, de pequenos comerciantes ou mesmo ricos
capitalistas. Não é surpreendente que a classe operária americana
tenha sido imbuída de um verdadeiro espírito capitalista.
O mesmo aconteceu em Inglaterra. Tendo assegurado o monopólio do
mercado mundial, a supremacia nos mercados internacionais e a posse
de ricas colónias, a Inglaterra acumulou uma fortuna considerável.
A classe capitalista, que não tinha que se bater pela sua parte de
lucro, podia conceder aos operários um modo de vida relativamente
desafogado. É certo que teve de travar algumas batalhas antes de se
decidir a adoptar esta atitude, mas depressa compreenderia que,
autorizando os sindicatos e garantindo os salários, assegurava a
paz nas fábricas. A classe operária inglesa foi então por sua vez
marcada pelo espírito capitalista.
Tudo isto está bem de acordo com o verdadeiro carácter do
sindicalismo. O objectivo do sindicalismo não é substituir o
sistema capitalista por um outro modo de produção, mas melhorar as
condições de vida no próprio interior do capitalismo. A essência do
sindicalismo não é revolucionária mas conservadora.
A acção sindicalista faz parte naturalmente da luta de classes. O
capitalismo assenta num antagonismo de classes, tendo os operários
e os capitalistas interesses opostos. Isto é verdade, não só no que
diz respeito à manutenção do regime capitalista, mas também no que
se refere à repartição do produto nacional bruto. Os capitalistas
tentam aumentar os seus lucros - a mais valia - diminuindo os
salários e aumentando o número de horas ou a cadência do trabalho.
Os operários, por seu lado, procuram aumentar os seus salários e
reduzir os seus horários. O preço da sua força de trabalho não é
uma quantidade determinada, embora deva ser superior ao que é
necessário para que um indivíduo não morra de fome; e o capitalista
não paga de boa vontade. Este antagonismo é assim gerador de
reivindicações e da verdadeira luta de classes. A tarefa e o papel
dos sindicatos consiste em continuar a luta.
O sindicalismo foi a primeira escola de aprendizagem do
proletariado; ensinou-lhes que a solidariedade estava no centro do
combate organizado. Incarnou a primeira forma de organização do
poder dos trabalhadores. Esta característica muitas vezes se
fossilizou nos primeiros sindicatos ingleses e americanos que
degeneraram em simples corporações, evolução tipicamente
capitalista. Tal não aconteceu nos países onde os operários tiveram
de se bater pela sua sobrevivência, onde, apesar de todos os seus
esforços, os sindicatos não conseguiram obter uma melhoria do nível
de vida e onde o sistema capitalista em plena expansão empregava
toda a sua energia a combater os trabalhadores. Nesses países, os
operários tiveram de apreender que só a revolução os poderia salvar
para sempre.
Existe sempre uma diferença entre a classe operária e os
sindicatos. A classe operária deve olhar para além do capitalismo,
enquanto que o sindicalismo está inteiramente confinado nos limites
do sistema capitalista. O sindicalismo só pode representar uma
parte, necessária mas ínfima da luta de classes. Ao desenvolver-se,
deve necessariamente entrar em conflito com a classe operária, a
qual pretende ir mais longe.
Os sindicatos crescem à medida que se desenvolvem o capitalismo e a
grande indústria, até se tornarem gigantescas organizações que
integram milhares de adeptos, se estendem por todo um país e têm
ramificações em cada cidade e em cada fábrica. São nomeados
funcionários: presidentes, secretários, tesoureiros, dirigem os
negócios, ocupam-se das finanças tanto à escala local como a nível
central. Estes funcionários são os dirigentes dos sindicatos. São
eles que conduzem as negociações com os capitalistas, tarefa em que
se tornaram mestres. O presidente de um sindicato é um personagem
importante que trata de igual para igual o patrão capitalista e com
ele discute os interesses dos trabalhadores. Os funcionários são os
especialistas do trabalho sindical, enquanto que os operários
especializados, absorvidos pelo seu trabalho na fábrica, não podem
nem deliberar nem dirigir por si próprios.
Uma tal organização já não é unicamente uma assembleia de
operários; forma um corpo organizado, que possui uma política, um
carácter, uma mentalidade, tradições e funções que lhe são
próprias. Os seus interesses são diferentes do da classe operária e
não recuará perante nenhum combate para os defender. Se algum dia
os sindicatos perdessem a sua utilidade, ainda assim não
desapareceriam. Os seus fundos, os seus adeptos, os seus
funcionários, são outras tantas realidades que não estão a ponto de
se dissolverem de um momento para o outro.
Os funcionários sindicais, os dirigentes do movimento operário, são
os defensores dos interesses particulares dos sindicatos. Apesar
das suas origens operárias, adquiriram, após longos anos de
experiência à cabeça da organização, um novo caracter social. Em
cada grupo social que se torna suficientemente importante para
constituir um grupo à parte, a natureza do trabalho molda e
determina os modos de pensamento e de acção. O papel dos
sindicalistas não é o mesmo que o dos operários. Eles não trabalham
na fábrica, não são explorados pelos capitalistas, não são
ameaçados pelo desemprego. Estão instalados em gabinetes, em
lugares relativamente estáveis. Discutem questões sindicais, têm a
palavra nas assembleias de operários e negoceiam com os patrões.
Decerto, devem estar do lado dos operários, cujos interesses e
reivindicações contra os capitalistas devem defender. Mas nisso, o
seu papel em nada difere do do advogado de uma organização
qualquer.
Existe contudo, uma diferença, porque a maior parte dos dirigentes
sindicais, saídos das fileiras da classe operária, sofreram eles
próprios, a experiência da exploração capitalista. Consideram-se
como fazendo parte da classe operária, cujo espírito de classe está
longe de se extinguir. No entanto, o seu novo modo de vida tende a
enfraquecer neles essa tradição ancestral. No plano económico, já
não podem ser considerados como proletários. Eles caminham ao lado
dos capitalistas, negoceiam com eles os salários e as horas de
trabalho, cada parte fazendo valer os seus próprios interesses,
rivalizando do mesmo modo que duas empresas capitalistas. Apreendem
a conhecer o ponto de vista dos capitalistas tão bem como o dos
trabalhadores; preocupam-se com os "interesses da indústria";
procuram agir como mediadores. Pode haver excepções ao nível dos
indivíduos, mas regra geral, não podem ter esse sentimento de
pertencerem a uma classe como têm os operários, pois que estes não
procuram compreender nem tomar em consideração os interesses dos
capitalista, mas lutam pelos seus próprios interesses. Por
conseguinte os sindicalistas entram necessariamente em conflito com
os operários.
Nos países capitalistas avançados, os dirigentes sindicais são
suficientemente numerosos para constituir um grupo à parte, com um
carácter e interesses separados. Na qualidade de representantes e
dirigentes dos sindicatos, encarnam o carácter e interesses desses
sindicatos. Visto que os sindicatos estão intrinsecamente ligados
ao capitalismo, os seus dirigentes consideram-se elementos
indispensáveis à sociedade capitalista. As funções capitalistas dos
sindicatos consistem em regular os conflito de classe e assegurar a
paz nas fábricas. Por conseguinte, os dirigentes sindicais
consideram ser seu dever como cidadãos trabalhar pela manutenção da
paz nas fábricas e intrometer-se nos conflitos. Nunca olham para
além do sistema capitalista. Estão inteiramente ao serviço dos
sindicatos e a sua existência está indissoluvelmente ligada à causa
do sindicalismo. Para eles, os sindicatos são os órgãos mais
essenciais à sociedade, a única fonte de segurança e de força;
devem, por conseguinte, ser defendidos por todos os meios
possíveis.
Concentrando os capitais em poderosas empresas, os patrões
encontram-se numa posição de força em relação aos operários. Os
grandes magnates da industria reinam como monarcas absolutos sobre
as massas operárias que mantêm sob a sua dependência e que impedem
de aderir aos sindicatos. Por vezes acontece que estes escravos do
capitalismo se insurgem contra os seus senhores e fazem greve,
reclamando melhores condições de trabalho, horários menos
carregados, o direito de se organizarem. Os sindicalistas acorrem
em sua ajuda. É então que os patrões fazem uso do seu poder
político e social. Expulsam os grevistas de suas casas, mandam
matá-los por milícias ou mercenários, prendem os seus porta-vozes,
declaram ilegais as suas caixas de socorros mútuos. A imprensa
capitalista fala de caos, de violência, de revolução, e dirige a
opinião pública contra os grevistas. Após vários meses de
tenacidade e sofrimentos heróicos, esgotados e desiludidos,
incapazes de fazer vergar a estrutura de aço do capitalismo, os
operários rendem-se, remetendo para mais tarde as suas
reivindicações.
A concentração de capitais enfraquece a posição dos sindicatos,
mesmo nos ramos de actividade em que são mais fortes. Apesar da sua
importância, os fundos de apoio aos grevistas mostram-se ínfimos
comparados com os recursos financeiros do adversário. Um ou dois
lok-out bastam para os esgotar inteiramente. O sindicato é então
incapaz de lutar, mesmo quando o patrão decide reduzir os salários
e aumentar as horas de trabalho. Resta-lhe aceitar as condições
desfavoráveis do patronato e a sua habilidade para negociar não lhe
serve de nada. É nesse momento que os aborrecimentos começam, pois
os operários querem lutar. Recusam render-se sem combate e sabem
pouco ter a perder se se revoltarem. Os dirigentes sindicais, pelo
contrário têm muito a perder: o poder financeiro dos sindicatos e,
por vezes, a sua própria existência é ameaçada. Assim, tentarão por
todos os meios impedir um combate que consideram não ter saída. E
procurarão convencer os trabalhadores que é do seu interesse
aceitar as condições do patronato. De tal modo que, em ultima
análise, agem como porta-vozes dos capitalistas. A situação é ainda
mais grave quando os operários persistem em querer continuar a
luta, sem ter em conta as palavras de ordem dos sindicatos. Nesse
caso, a força sindical vira-se contra os trabalhadores.
O dirigente sindical torna-se assim escravo da sua função - a
manutenção da paz nas fábricas - e isto em detrimento dos
operários, se bem que pretenda defender os interesses destes o
melhor possível. Visto que não é capaz de olhar para além do
sistema capitalista, em pensar que a luta é inútil. Aí se situam os
limites do seu poder e é sobre isso que a crítica deve incidir.
Existe outra saída? Podem os operários esperar ganhar qualquer
coisa ao lutar? É bem provável que não obtenham satisfações
imediatas, mas ganharão outra coisa, porque ao recusarem
submeter-se sem combate, atiçam o espírito de revolta contra o
capitalismo. Formulam novas reivindicações e torna-se então
essencial que o conjunto da classe operária as defenda. É-lhes
necessário mostrar a todos os trabalhadores que para eles não há
esperança no interior das estruturas capitalistas e que só podem
vencer unidos, fora dos sindicatos. É então que começa a luta
revolucionária. Quando todos os trabalhadores compreenderem esta
lição, quando se desencadearem greves simultaneamente em todos os
ramos da indústria, quando rebentar uma vaga de revolta pelo país,
então talvez nasçam algumas dúvidas nos corações arrogantes dos
capitalistas; vendo o seu poder ameaçado, consentirão em fazer
algumas concessões.
O dirigente sindical não pode compreender este ponto de vista, pois
que o sindicalismo não pode olhar para além do capitalismo. Ele não
pode deixar de se opôr a um combate deste género que significa a
sua perda. Sindicatos e patrões estão unidos no receio comum de uma
revolta do proletariado.
Quando os sindicatos se batiam contra a classe capitalista para
obter melhores condições de trabalho, esta detestava-os mas não
tinha possibilidade de os destruir completamente. Se hoje os
sindicatos tentassem despertar o espírito combativo da classe
operária, seriam perseguidos sem piedade pela classe dirigente, que
reprimiria as suas acções, mandaria a milícia destruir os seus
gabinetes, prenderia os seus dirigentes e condená-los-ia a multas,
confiscaria os seus fundos. Se, pelo contrário, impedissem os seus
adeptos de lutar, seriam considerados pela classe capitalista como
preciosas instituições; seriam protegidos e os seus dirigentes
seriam considerados dignos cidadãos. Os sindicatos encontram-se
assim entalados entre dois males: por um lado as perseguições que
são uma triste sorte para pessoas que se pretendem cidadãos
pacíficos; por outro, a revolta dos operários sindicalizados que
ameaça abalar os alicerces da organização sindical. Se a classe
dirigente for prudente, reconhecerá a utilidade de um simulacro de
luta, se quiser que os dirigentes sindicais conservem uma certa
influência sobre os seus membros.
Ninguém é responsável por estes conflitos: são a consequência
inegável do desenvolvimento do capitalismo. O capitalismo existe,
mas encontra-se também no caminho da sua ruína. Deve ser combatido
simultaneamente como uma entidade viva e como uma fase transitória.
Os operários devem, ao mesmo tempo, lutar incansavelmente para
obter salários mais elevados e melhores condições de trabalho, e
tomar consciência dos ideais comunistas. Agarram-se aos sindicatos
que consideram ainda necessários, procurando de vez em quando fazer
deles melhores instrumentos de combate. Mas não partilham o
espírito do sindicalismo, que permanece essencialmente capitalista.
As divergências que opõem o capitalismo à luta de classes são hoje
representadas pelo fosso que separa o espírito sindicalista,
principalmente incarnado pelos dirigentes sindicais, da atitude
cada vez mais revolucionária dos sindicalizados. Este fosso
torna-se evidente sempre que surge um problema político ou social
importante.
O sindicalismo está estreitamente ligado ao capitalismo; é nos
períodos de prosperidade que tem mais probalidades de ver as suas
reivindicações de ver as suas reivindicações salariais satisfeitas.
De tal modo que, em período de crise económica, tem de fazer votos
para que o capitalismo retome a sua expansão. Os trabalhadores,
enquanto classe, não se preocupam nada com o bom andamento dos
negócios. Com efeito, é quando o capitalismo está mais fraco que
eles têm mais probalidades de o atacar, de reunir forças e dar o
primeiro passo para a liberdade e a revolução.
O sistema capitalista estende a sua dominação ao estrangeiro,
apropriando-se das riquezas naturais de outros países em seu
próprio benefício. Conquista colónias, submete as populações
primitivas e explora-as não hesitando em cometer as piores
atrocidades. A classe operária denuncia e combate a exploração
colonial, enquanto que o sindicalismo defende muitas vezes uma
política colonialista, fonte de prosperidade para o regime
capitalista.
À medida que o capital aumenta, as colónias e países estrangeiros
são objecto de investimentos maciços. Mercados para a grande
industria e produtores de matérias-primas, adquirem uma importância
considerável. Para obter estas colónias, os grandes estados
capitalistas entregam-se a lutas de influência e procedem a uma
verdadeira partilha do mundo. As classes médias deixam-se arrastar
nestas conquistas imperialistas em nome da grandeza nacional.
Depois os sindicatos colocam-se por sua vez ao lado das classes
dirigentes sob pretexto de a prosperidade do país depender do
sucesso que retira da luta imperialista. Por seu lado, a classe
operária não vê no imperialismo mais do que uma forma de reforçar o
poder e a brutalidade dos opressores.
Estas rivalidades de interesses entre as nações capitalistas
transformam-se em verdadeiras guerras. A guerra mundial é o
coroamento da política imperialista. Para os trabalhadores
significa não só o fim da solidariedade internacional, mas também a
forma mais violenta de exploração. Porque a classe operária, camada
mais importante e mais explorada da sociedade, é a primeira a ser
afectada pelos horrores da guerra. Os operários terão não só de
fornecer a sua força de trabalho, como também de sacrificar a
vida.
E, contudo, o sindicalismo em tempo de guerra não pode senão estar
do lado do capitalismo. Estando os seus interesses ligados aos do
capitalismo, não pode deixar de desejar a vitória deste último.
Assim dedica-se a despertar os instintos nacionalistas e o
chauvinismo. Auxilia a classe dirigente a arrastar os trabalhadores
para a guerra e a reprimir qualquer oposição.
O sindicalismo tem horror ao comunismo, que representa uma ameaça
constante à sua própria existência. Em regime comunista não há
patrões nem, por conseguinte, sindicatos. Claro que nos países onde
existe um forte movimento socialista e onde a grande maioria dos
trabalhadores são socialistas, os dirigentes do movimento operário
têm também de ser socialistas. Mas trata-se de socialistas de
direita que se limitam a desejar uma república na qual honestos
dirigentes sindicais substituiriam os capitalistas ávidos de lucro
à cabeça da produção.
O sindicalismo tem horror à revolução que subverte as relações
entre patrões e operários. No decorrer dos seus violentos
confrontos, ela varre de um só golpe os regulamentos e as
convenções que regem o trabalho; perante essas gigantescas
manifestações de força, os modestos talentos de negociantes dos
dirigentes sindicais são ultrapassados. Esta a razão porque o
sindicalismo mobiliza todas as suas forças para se opôr à revolução
e ao comunismo.
Esta atitude é rica em significações. O sindicalismo constitui uma
verdadeira força. Dispõe de fundos consideráveis e de uma
influência moral cuidadosamente mantida nas suas diversas
publicações. Esta força está concentrada nas mãos dos dirigentes
sindicais que a utilizam de cada vez que os interesses particulares
dos sindicatos entram em conflito com os dos trabalhadores. Embora
tenha sido construído pelos e para os operários, o sindicalismo
domina os trabalhadores, do mesmo modo que o governo domina o
povo.
O sindicalismo varia segundo o país e segundo a forma do
desenvolvimento capitalista. Pode também passar por fases no
interior de um determinado país. Acontece haver sindicatos que
perdem a sua força e aos quais o espírito combativo dos operários
insufla um sopro de vida, ou até os transforma radicalmente. Na
Inglaterra, nos anos de 1880-90, um "novo sindicalismo" surgiu
assim das massas pobres, dos estivadores, e outros trabalhadores
não especializados e sub-remunerados rejuvenescendo as estruturas
anquilosadas dos antigos sindicatos. O aumento do número de
trabalhadores manuais vivendo em condições lamentáveis é uma das
consequências do desenvolvimento da capitalismo que cria sem cessar
novas indústrias e substitui os trabalhadores especializados por
máquinas. Quando, reduzidos às suas últimas forças, estes
trabalhadores seguem o caminho da revolta e da greve, adquirem
finalmente uma consciência de classe. Remodelam as estruturas do
sindicalismo, de maneira a adoptá-las a uma forma mais avançada do
capitalismo. Na verdade, quando o capitalismo ultrapassa este
limiar, o novo sindicalismo não pode escapar à sorte que espera
qualquer forma de sindicalismo e produz, por sua vez, as mesmas
contradições internas.
O novo sindicalismo iria aparecer particularmente na América, com
os I.W.W. (International Workers of the World), nascido de duas
formas de desenvolvimento capitalista. Nas vastas regiões de
florestas e planícies do Oeste, os capitalistas apropriaram-se das
riquezas naturais por métodos brutais a que os
operários-aventureiros responderam com a violência e a selvajaria.
No Leste dos Estados Unidos, a indústria ir-se-ia, pelo contrário,
desenvolver à custa da exploração de milhões de pobres imigrados
vindos de países de baixo nível de vida e que foram submetidos a
condições de trabalho miseráveis.
Para lutar contra o espírito estreitamente corporativo do velho
sindicalismo americano - a Federação Americana do Trabalho, que
dividia os operários de uma fábrica em vários sindicatos separados
-, os I.W.W. propuseram que todos os operários de uma mesma fábrica
se unissem contra o patrão no interior de um sindicato único.
Condenando as rivalidades mesquinhas que opunham os sindicatos
entre si, os I.W.W. iriam voltar-se para esta fracção mais
miserável do proletariado e conduzi-la para a luta. Eram demasiado
pobres para pagar as cotas elevadas e constituir sindicatos
tradicionais. Mas quando se revoltaram e se puseram em greve, foram
os I.W.W. que os ensinaram a lutar, que juntaram fundos de apoio
através do país e que defenderam a sua causa na imprensa e perante
os tribunais. Alcançando uma série de vitórias, viriam a insuflar
no coração das massas o espírito de organização e de
responsabilidade. E enquanto que os antigos sindicatos jogavam na
sua riqueza financeira, os I.W.W. apoiaram-se na solidariedade, no
entusiasmo e nas capacidades de resistência dos trabalhadores. Em
vez da estrutura rígida dos velhos sindicatos, os I.W.W. propuseram
uma forma de organização flexível, variando quanto ao número
conforme a situação, com efectivos reduzidos em tempo de paz,
desenvolvendo-se com a luta. Recusando o espírito conservador e
capitalista do sindicalismo americano, os I.W.W. preconizavam a
revolução. Os seus membros foram perseguidos sem piedade pelo
conjunto do mundo capitalista. Foram lançados na prisão e
torturados com base em falsas acusações. O direito americano chegou
mesmo a inventar um novo delito: o "criminal syndicalism".
Como método de luta contra a sociedade capitalista, o sindicalismo
industrial, não é suficiente para, por si só, derrubar essa
sociedade e conquistar o mundo para os trabalhadores. Combate o
capitalismo sob a sua forma patronal, no sector económico da
produção, mas não se pode declarar contra o seu baluarte político,
o poder estatal. Contudo, os I.W.W. foram até hoje a forma de
organização mais revolucionária na América. Contribuiu mais do que
qualquer outra para despertar a consciência de classe, a
solidariedade e a unidade do proletariado, para reivindicar o
comunismo e para estimular as suas armas de combate.
O sindicalismo não pode vencer a resistência do capitalismo. Esta a
lição que se deve depreender do que anteriormente se disse. As
vitórias que alcança trazem apenas soluções a curto prazo. Mas as
lutas sindicais não são menos essenciais e devem prosseguir até ao
fim, até à vitoria final.
A incapacidade do sindicalismo nada tem de surpreendente, pois que
se um grupo isolado de trabalhadores se pode mostrar numa justa
correlação de forças quando se opõe a um patronato isolado, é
porém, impotente face a um patrão que é apoiado pelo conjunto da
classe capitalista. É o que se passa neste caso: o poder estatal, a
força financeira do capitalismo, a opinião pública burguesa, a
virulência da imprensa capitalista concorrem para vencer o grupo de
trabalhadores combativos.
Quanto ao conjunto da classe operária, não se sente envolvido pela
luta de um grupo de grevistas. Sem dúvida que a massa dos
trabalhadores nunca é hostil a uma acção de greve: pode até chegar
a empreender colectas para apoiar os grevistas - com a condição de
não serem proibidas por ordem de um tribunal. Mas esta simpatia não
vai mais longe: os grevistas permanecem sós, enquanto milhões de
trabalhadores os observam passivamente. E a luta não pode ser ganha
(salvo em casos particulares quando o patronato decide, por razões
económicas, satisfazer algumas reivindicações) enquanto o conjunto
da classe operária não estiver unido neste combate.
A situação é diferente quando os trabalhadores se sentem
directamente implicados na luta; quando compreendem que o seu
futuro está em jogo. A partir do momento em que a greve se
generaliza ao conjunto da indústria, o poder capitalista tem de
enfrentar o poder colectivo da classe operária.
Muitas vezes se disse que a extensão da greve, e a generalização ao
conjunto das actividades de um país, era o meio mais seguro para
assegurar a vitória. Mas é preciso não ver nesta táctica um esquema
prático que possa ser utilizado em qualquer altura com êxito. Se
assim fosse, o sindicalismo não teria deixado de a utilizar
constantemente. A greve geral não pode ser decretada, segundo o
humor dos dirigentes sindicais, como uma simples táctica. Não deve
surgir senão das entranhas da classe operária, como forma de
expressão da sua espontaneidade; e não se deve efectuar senão
quando a essência do combate ultrapassa largamente as simples
reivindicações de um só grupo. Então, os trabalhadores colocarão
verdadeiramente todas as suas forças, o seu entusiasmo, a sua
solidariedade e a sua capacidade de resistência na luta.
E terão necessidade de todas as suas forças, porque o capitalismo
mobilizará por seu lado, as suas melhores armas. Poderá ser
surpreendido por esta repentina demonstração de força do
proletariado e poderá ver-se obrigado, num primeiro momento, a
fazer concessões. Mas não passará de um recuo temporário. A vitória
do proletariado não está assegurada nem é duradoira. O seu caminho
não está claramente traçado, mas deve ser trilhado através da selva
capitalista à custa de imensos esforços.
Contudo, cada pequena vitória é em si um progresso, porque arrasta
consigo uma vaga de solidariedade operária: as massas toma
consciência da força da sua unidade. Através da acção os
trabalhadores compreendem melhor o que significa o capitalismo e
qual é a sua posição em relação à classe dirigente. Começam a
vislumbrar o caminho da liberdade.
A luta sai assim do domínio estreito do sindicalismo para entrar no
vasto campo da luta de classes. Cabe então aos próprios
trabalhadores mudar. Precisam alargar a sua concepção do mundo e
olhar, para além das paredes da fábrica, para o conjunto da
sociedade. Devem elevar-se acima da mesquinhez que os rodeia e
fazer frente ao Estado. Penetram então no reino da política. É
tempo de se preocuparem com a revolução.