O CAPITALISMO DE ESTADO DA U.R.S.S.
NILDO VIANA
Um Lombardo Radice, por exemplo, fala de "Socialismo
Despótico"; outros falam de "Socialismo de Estado"; outros, ainda,
de "Capitalismo de Estado". Na verdade, tudo depende do ponto de
vista. Se considerarmos o ponto de vista do operário, que vende sua
força de trabalho, como mercadoria, ao Estado já que é o Estado que
gerencia a economia e as empresas - para ele, operário é o mesmo
que viver sob o capitalismo.
Ingolf Diener
Quando
Marx escreveu O Capital afirmou que partia do ponto de vista do
proletariada. Este, segundo a teoria marxista, é o sujeito
histórico que abole não só a sociedade burguesa mas a sociedade de
classes em geral. O mais desenvolvido modo de produção classista da
História - O Capitalismo - explora, domina e aliena o proletariado.
Este resiste, se levanta e coloca em xeque o capitalismo. Por isso,
é o seu ponto de vista que pode revelar as contradições da
sociedade burguesa e realizar o que Marx chamou "a crítica
desapiedada do existente". Hoje, o marxismo foi apropriado por
outras classes (burguesia, burocracia, etc.) para expressar um
ponto de vista estranho ao do proletariado. Trata-se, então, de nos
reapropriarmos do marxismo como "expressão teórica do movimento
operário" (Korsch), inclusive na análise da URSS e Leste
Europeu.
Existem
inúmeras interpretações sobre o caráter da sociedade soviética.
Além daquelas que defendem o caráter socialista da sociedade
soviética (alguns utilizando adjetivos tais como "Socialismo de
Estado", "Socialismo de Acumulação", "Socialismo
Burocrático", etc.) existem as que consideram uma "Sociedade de
Transição" que deverá caminhar para o socialismo. Aí se enquadra a
tese Trotskista do "Estado operário com deformações burocráticas" e
a teses ambígua de Rudolf Bahro que qualifica a URSS, de forma
indecisa, como um regime "Proto-Socialista".
Há também
aquelas que julgam que a URSS não é nem socialista nem capitalista.
Trata-se de um modo de produção ou uma sociedade pós-capitalista
mas não socialista. Os conceitos são vários: Modo de Produção
Tecno-Burocrático, Modo de Produção Corporativista, Modo de
Produção Estatal, Economia Estatal Totalitária, Sociedade Militar,
etc.
Entretanto, a corrente que conseguiu revelar o verdadeiro
caráter da sociedade soviética foi aquela que qualificou como uma
nova forma de capitalismo: o Capitalismo de Estado. Já na década de
20 surgem os primeiros teóricos e os grupos que defendem esta tese:
Amadeo Bordiga e a esquerda comunista italiana, os comunistas
conselhistas e o grupo "verdade operária" na URSS.
Para
Bordiga, foi a herança do "asiatismo" da Rússia que impossibilitou
a formação do capitalismo em sua forma clássica e que gerou o
capitalismo de Estado. Este seria uma formação social transitória e
especificamente russa. O Modo de Produção Asiático colocou suas
intituições à serviço do desenvolvimento capitalista gerando a
estatização dos meios de produção. Esta seria uma etapa transitória
e temporária que prepararia a implantação do Capitalismo
Privado.
Os
Comunistas Conselhistas (onde se destacam Korsch, Pannekoek,
Gorter, Wagner, Ruhle e Mattick) afirmaram que o desenvolvimento
insuficiente das forças produtivas gerou uma Revolução Jacobina
(que também pode ser chamada de "Contra-Revolução Burocrática") e
esta caracterizou todas as tarefas econômicas necessárias para a
formação do Capitalismo de Estado. O bolchevismo realizou uma
Revolução Jacobina (que, em última instância, é uma revolução
burguesa) e implantou o capitalismo sob uma nova forma. Pannekoek
diz que essa forma de capitalismo "é uma produção organizada onde o
Estado é o patrão universal, o senhor do aparelho produtivo. Os
trabalhadores são lá tão senhores dos meios de produção como no
capitalismo universal. Recebem um salário e são explorados pelo
Estado, que é o único capitalista (e de que tamanho!) (1).
O grupo
clandestino "Verdade Operária" parte da análise do desenvolvimento
do Capitalismo Mundial para explicar a formação do Capitalismo
Estatal da URSS. Segundo este grupo, a burguesia privada não é
capaz de ultrapassar os interesses de cada ramo da produção e por
isso se torna necessária a crescente ação do Estado sobre a
economia realizada pela tecnocracia. Na URSS, houve a fusão da
tecnocracia com os capitalistas comerciais do período da NEP (Nova
Política Econômica) dando origem a Burguesia de Estado, sendo o
partido bolchevique sua principal instituição. Essa nova burguesia
criou seu próprio regime econômico: o Capitalismo de Estado.
Na década
de 30, o historiador Arthur Rosemberg defenderia, com algumas
diferenças, as teses dos Comunistas Conselhistas. Segundo ele, "em
suas partes essenciais, o bolchevismo revelou o objetivo que se
colocara. Com a ajuda do proletariado, derrubou o Tzarismo e fez a
revolução burguesa. Superou a vergonhosa inferioridade russa,
levando o país ao nível dos Modernos Estados Burgueses Europeus.
Graças à força da classe operária, conseguiu ainda substituir a
economia e a forma de sociedade capitalismo privada por uma moderna
organização baseada no Capitalismo de Estado" (2).
Ainda na
década de 30, A. Ciliga defenderia a teoria de que a Rússia vivia
sob o Capitalismo de Estado. Para ele, Stálin e Trótski: "...
queriam fazer passar o Estado pelo proletariado, a ditadura
burocrática sobre o proletariado pela ditadura do proletariado, a
vitória do Capitalismo de Estado sobre o Capitalismo Privado e
sobre o Socialismo por uma vitória deste último... Já tivemos
provas suficientes de que o atual sistema da Rússia preservou todas
as características essenciais do Capitalismo: produção de
mercadorias, salários, mercados para a troca, dinheiro, lucros,
redistribuição parcial dos lucros entre os burocratas, sob a forma
de altos salários, privilégios, etc." (3).
Depois
destes, vários outros pensadores, militantes e grupos defenderam,
de forma diferente, a mesma tese. M. Rubel, baseando-se nos
escritos de Marx e Engels sobre a Rússia Czarista, coloca o
surgimento do Capitalismo de Estado Russo como provocado pelo
atraso econômico do país. As relações de produção dominantes na
Rússia impulsionaram o Estado soviético a desenvolver o método
capitalista da "acumulação primitiva" e consolidar o Capitalismo de
Estado. Outro exemplo é C. Castoriadis, quando ainda se
auto-intitulava marxista, que defendia a URSS como um capitalismo
burocrático. As relações de produção predominantes na URSS seria
uma relação de classe que opunha o proletariado à burocracia,
classe que dispõe dos meios de produção e com isso efetua a
exploração através do trabalho assalariado. Para ele, o capitalismo
burocrático e o capitalismo privado viveriam em um constante
conflito que resultaria na vitória de um sobre outro.
O
Trotskismo também produziu teóricos e grupos que caracterização a
URSS como Capitalismo de Estado: No fim da década de 30, James
Burnham e Max Schachtman, da secção americana da IV Internacional;
na década de 50, Toni Cliff; na década de 70, o grupo dissidente
francês "União Operária". Alguns grupos e teóricos não trotskistas,
como o grupo inglês Solidarity, também reconheceram o caráter
capitalista da Rússia. Seria impossível aqui uma lista exaustiva
daqueles teóricos e grupos que defenderam a teoria do Capitalismo
de Estado, tanto por desconhecimento quanto por falta de espaço
para realizar tal feito.
Mas, para
concluir, devemos expor as teses de três teóricos que, na década de
70, retomaram a concepção do Capitalismo de Estado da URSS. Eles
são: o autonomista português João Bernardo, o bordiguista Jean
Barrot e o maoísta Charles Bettelheim. Para Jean Barrot, foi o
movimento do capital que gerou o capitalismo russo. Mas, para ele,
o Capitalismo de Estado não é, como era para Bordiga, uma fase
necessariamente transitória para o capitalismo privado. Segundo
Barrot, "a partir de 1914 a potência do capital escapa à burguesia
- visto que esta procura, antes de mais nada, controlar o seu
progresso, o capital encontra novos agentes capazes de levar a bom
termo o seu crescimento. O fenômeno existia já no século XIX
(Mehemet Áli), mas alargou-se aqui a todo um conjunto de países
subdesenvolvidos ou relativamente atrasados. O mais notável exemplo
é, sem dúvida, o da revolução russa. A Rússia tem um proletariado
importante pelo seu número e pela sua concentração, mas que se
encontra rodeado - cercado - por uma massa camponesa enorme. A
burguesia nacional é ali relativamente débil, já que o
desenvolvimento econômico foi sobretudo o produto do capital
estrangeiro e do Estado. A revolução expropria o primeiro e destrói
o segundo. Depois do refluxo do movimento na Europa, o capital é
assumido, não por uma "nova" classe - o que suporia novas relações
de produção, já não capitalistas mas outras -, mas por uma
burguesia cujo papel social é o mesmo, embora com modos de
constituição e funcionamento diferentes dos da burguesia clássica:
possui os meios de produção por intermédio do Estado - por
conseguinte, digamos, a título coletivo, o que não exclui aliás uma
autonomia mais ou menos larga das empresas (...). A burguesia de
Estado formou-se a partir de antigos militantes operários, de
quadros da indústria ou da administração." (4).
Charles
Bettelheim reavalia suas análises sobre a URSS, a qual ele definia
como uma sociedade socialista, e passa a defini-la como um
Capitalismo de Estado. A principal diferença e os demais teóricos
do caráter capitalista da Rússia está na explicação da origem do
capitalismo russo. Para Bettelheim esta origem se encontra na
solução dada à questão da aliança operário camponesa. As
contradições no campo e as limitações da política do partido
bolchevista reforçaram a tendência do campesinato, principalmente o
médio, a exercer uma prática política pequeno-burguesa e este foi o
principal elemento que, aliado a outros, provocou o retrocesso da
revolução de outubro através da autonomização crescente do Estado
que acabou reproduzindo as relações de produção capitalistas.
(5).
João
Bernardo, por sua vez, afirma que a tecnocracia é uma classe social
que pode dar um "novo fôlego" ao capitalismo. O partido bolchevique
cumpriu este papel e criou o Capitalismo de Estado russo. Este se
diferencia do capitalismo clássico pela forma de realização da lei
do valor, lei fundamental do modo de produção capitalismo. No
capitalismo privado a lei do valor se realiza nos preços do mercado
e no Capitalismo de Estado no jogo dos planos. Daí decorrem
diversas outras diferenças como a forma de distribuição da
mais-valia e a forma de reprodução dos "Capitalistas de Estado" mas
o fundamental do modo de produção capitalistas, a lei do valor,
continua existindo e se realizando. J. Bernardo considera que o
capitalista monopolista de Estado tende a se transformar em
Capitalismo de Estado integral, do tipo soviético. A questão a ser
resolvida é: ou o socialismo construído pelo proletariado através
da autogestão social ou a barbárie capitalista comandada pela
tecnocracia reproduzida como burguesia de Estado (6).
Depois
deste breve histórico das teorias de Capitalismo de Estado passemos
para a análise da formação desta teoria. A determinação fundamental
que levou ao surgimento do capitalismo de "novo tipo" foi o
desenvolvimento insuficiente das forças produtivas. A Rússia era um
país pré-capitalista em transição para o capitalismo.
Entretanto, o desenvolvimento insuficiente das forças produtivas
não gera, por si só, o Capitalismo de Estado ou, como dizem alguns,
a "burocratização". O atraso da Rússia Czarista forma as condições
determinadas nas quais se desenvolveram as lutas de classe. Essas
condições dadas colocam as possibilidades históricas que poderão
ser concretizadas e que serão definidas através das lutas de
classes. A Rússia poderia ter caminhado para o Socialismo, o
Capitalismo Privado, o Capitalismo de Estado, etc., pois a História
é aberta. isto, contudo, não quer dizer que ela seja arbitrária: No
presente se revelam as tendências de desenvolvimento futuro e a
tendência que irá prevalecer depende da ação humana expressa na
luta de classes.
Marx e
Engels já haviam observado que a burguesia não lançaria mais as
massas em uma luta revolucionária devido ao medo de que estas se
voltassem contra ela. A burguesia se tornou contra-revolucionária a
partir da segunda metade do século XIX. Na Rússia atrasada, a
burguesia nascente não iria assumir um papel revolucionário e não
romperia sua aliança com o Czarismo. Lá o mais provável seria a
realização de uma "revolução burguesa sem burguesia". Com o regime
czarista em crise e com a pouca possibilidade de implantação do
capitalismo privado, divido a debilidade da burguesia russa,
restava com tendências principais: o Capitalismo de Estado e o
Socialismo.
É neste
país em transição para o capitalismo, que contava com
aproximadamente 70% da população formada por camponeses e com uma
classe operária em formação, que surge o bolchevismo. Lênin, o
principal líder e o mais influente teórico bolcheviche, escrevia,
em 1902, que o proletariado jogado a si mesmo chegaria no máximo a
uma consciência sindical e isto significa ficar nos limites da
ideologia burguesa. A consciência de classe seria introjetada "de
fora" pelos intelectuais revolucionários do partido de vanguarda
(7). Esta é, claramente, uma ideologia da tecnocracia, pois
reproduz a divisão entre dirigentes e dirigidos, entre trabalho
intelectual e trabalho manual. O partido sendo a "vanguarda" da
classe, então, a conquista do poder estatal por ele passa a ser
equivalente à ditadura do proletariado. Em 1902 já estava
justificado o Golpe de Estado de outubro de 1917.
O partido
substitui a classe operária como "sujeito revolucionário" e
por isso deve ser coerente e eficiente nas suas ações políticas.
Para isso ocorrer deve haver centralização, disciplina e unidade de
ação. Isso tudo torna o "centralismo democrático" uma necessidade.
Neste sentido, ideologia e organização estão unificadas e se
complementam.
O
proletariado russo, apesar da ideologia da "nulidade operária"
criada por Lênin, cria os sovietes (conselhos operários) na
revolução de 1905 e novamente na revolução de fevereiro de
1917 (8). O próprio Lênin reconheceu a espontaneidade
revolucionária do proletariado na revolução de fevereiro: "Em
fevereiro de 1.917 as massas organizaram os sovietes antes mesmo
que algum partido tivesse tido tempo de lançar esta palavra de
ordem. O grande gênio criador do povo, temperado pela amarga
experiência de 1905, que o tornara consciente, eis o artifície
desta forma de poder proletário" (9). Com a revolução de fevereiro
se implanta uma dualidade de poderes: de um lado, o poder
contra-revolucionário expresso no Estado Czarista, de outro lado, o
poder revolucionário expresso nos sovietes.
Os
bolcheviques, com o Golpe de Estado de outubro, assumem o poder do
Estado e a partir disto a dualidade de poderes começa a se resolver
em favor do "Estado burguês mas sem burguesia" de Lênin. Os
bolcheviques no poder pregam a "gestão individual das empresas", a
implantação do Taylorismo (método tipicamente capitalista de gestão
nas fábricas), a militarização dos sindicatos e, além disso,
esvaziam os sovietes implantando a ditadura do partido (10).
O
bolchevismo realiza, através do exército vermelho, a
contra-revolução na Ucrânia destruindo a coletivização camponesa lá
realizada (11). Abole as frações dissidentes internas do partido
como os "comunistas de esquerda", a "oposição operária" e os
"centralistas democráticos" (12). A insurreição de Kronstadt
declarada pelos marinheiros pretendia reestabeler os sovietes, como
demonstra o Izsvestia de Kronstadt de 6 de março de 1921: "Nossa
causa é justa. Somos pelo poder do sovietes e não dos partidos.
Somos pela eleição livre dos representantes das massas
trabalhadoras. Os sovietes falsificados, monopolizados e
manipulados pelo partido comunista sempre foram surdos às nossas
necessidades e exigências; a única resposta que recebemos foi a
bala assassina" (13). O massacre de Kronstadt demonstrou que dessa
vez não seria diferente. Com a dominação bolcheviche nascida da
fusão do partido com o Estado surge uma camada burocrática que
cresce cada vez mais. A burocracia dominante surge de quadros do
partido, do Estado Czarista, das indústrias, da pequena burguesia e
em menor grau do campesinato e até mesmo da classe operária. A
burocracia (Burguesia do Estado) se fortalece e consolida enquanto
classe dominante durante o período do "comunismo de guerra" e
durante a NEP (Nova Política Econômica). A ascensão de Stálin
demonstra essa consolidação. A classe dominante, expressa
perfeitamente no stalinismo, encontra a partir de então, dois
obstáculos: a burocracia dissidente liderada por Tróstski e o
campesinato. A repressão à "oposição unificada" que vai até
os processos de Moscou e a "estatização forçada", que proporcionou
a chamada "acumulação socialista primitiva" através da
superexploração dos camponeses, removem estes obstáculos (14). O
Capitalismo de Estado passa a predominar na URSS.
Mas resta
saber: o que é o Capitalismo de Estado? Desde Marx sabemos que a
definição de um modo de produção se encontra nas relações de
produção dominantes em uma sociedade.
As
relações de produção capitalistas são aquelas em que a produção de
mercadorias e a lei do valor se generalizam ao ponto da própria
força de trabalho se tornar uma mercadoria. O valor de uma
mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho socialmente
necessário para sua produção. Os trabalhadores devem estar
separados dos meios de produção e ter como única mercadoria sua
força de trabalho. Por isso, eles são obrigados a vender sua força
de trabalho ao capital. Este paga em forma de salário o mínimo
necessário para sua reprodução. Entretanto, a força de trabalho
produz mais do que o necessário para a sua reprodução e este
excedente produzido é apropriado pelo capital. O excedente é a mais
valia e esta apropriação expressa o domínio do trabalho morto sobre
o trabalho vivo.
Na URSS,
os trabalhadores estão separados dos meios de produção e só possuem
a sua força de trabalho como mercadoria para vendê-la ao capital.
Entretanto, assim como no capitalismo privado, eles só recebem, em
forma de salário, o necessário para sua reprodução enquanto força
de trabalho e produzem um excedente que é apropriado pelo capital,
a mais valia. Como se vê, o fundamental das relações de produção
capitalistas estão presentes na URSS.
Contudo,
existem algumas diferenças. No capitalismo privado predomina a
propriedade privada individual e no Capitalismo de Estado predomina
a propriedade privado de uma classe que a gera coletivamente
através do Estado. Esta diferença, por sua vez, cria outras
diferenças, mas que não colocam em questão o caráter capitalistas
das relações de produção nas URSS.
Este é o
ABC da teoria do Capitalismo de Estado. Os opositores desta teoria
colocam dois obstáculos principais, a saber: em primeiro lugar,
dizem que a burocracia não é uma classe dominante pois ela não é
uma classe proprietária; em segundo lugar, afirmam que não há
predomínio da lei do valor na URSS. Aprofundaremos a teoria do
Capitalismo de Estado respondendo a estas questões.
Em
primeiro lugar, devemos colocar que a burocracia (Burguesia de
Estado) é uma classe proprietária. Na URSS a propriedade jurídica é
coletiva, mas a propriedade real é privada. Segundo Marx "em cada
época histórica, a propriedade desenvolveu-se diferentemente e numa
série de relações sociais totalmente distintas. Por isto, definir a
propriedade burguesa não é mais do que expor todas as relações
sociais da produção burguesa", pois, "pretender dar uma definição
da propriedade como uma relação independente, uma categoria à
parte, uma idéia abstrata e universal - isto não pode ser mais que
uma ilusão de metafísica ou jurisprudência" (15). As relações de
propriedade são uma expressão jurídica (e portanto, ideologia) das
relações de produção (16). Portanto, é no conjunto das relações de
produção que se determina a existência e a forma de propriedade. O
título de propriedade é apenas uma justificativa ideológica que a
classe proprietária utiliza para manter o seu controle sobre os
meios de produção e a força de trabalho. Não é através do título
jurídico que poderemos definir se existe propriedade ou qual sua
forma. A definição só pode ser realizada através do conhecimento de
quem controla as forças produtivas. Propriedade real e controle da
propriedade são inseparáveis. Somente na ideologia, na propriedade
jurídica, pode haver a separação entre propriedade e controle.
No
capitalismo privado, os proprietários individuais justificam a
exploração através do título de propriedade privada. No Capitalismo
de Estado, ao contrário, a burocracia justifica a exploração ao
declarar que a propriedade dos meios de produção pertencem ao povo
mas é dirigido pelo Estado, ou seja, pela burocracia. A expressão
jurídica da propriedade burguesa no capitalismo privado se
caracteriza por afirmar a sua existência e compromisso justificar o
controle sobre as forças produtivas e no Capitalismo de Estado se
caracteriza por afirmar sua "inexistência" e é justamente isso que
justifica o controle sobre as forças produtivas realizado pelo
"coletivismo burocrático". A propriedade real está presente em
ambos os casos mas a propriedade jurídica está presente apenas em
um. Pois, na URSS, a propriedade pertence ao povo e se pertence a
todo mundo quer dizer, no final das contas, que "não pertence" a
ninguém.
A
existência do controle estatal sobre as forças produtivas realizado
pela burocracia demonstra que essa é uma relação de classe e,
conseqüentemente, uma relação de exploração. C. Castoriadis
demonstrou isso muito bem, embora não tenha demonstrado como
observou J. Barrot, que esta exploração é capitalista. Pois todas
as relações de classe e de exploração se baseiam neste pressuposto
do controle sobre as forças produtivas. Portanto, é preciso
demonstrar o caráter especificamente capitalista desta exploração.
O que define isso é a forma como se dá a apropriação do
mais-trabalho e está se dá, no capitalismo através da extração da
mais-valia. Como demonstramos anteriormente, a burocracia extrai
mais-trabalho dos produtores diretos em forma de mais-valia, assim
como a burguesia privada, e decide o que será feito com o excedente
produzido, dentro dos limites impostos pela dinâmica do modo de
produção.
Portanto,
o essencial é definir se há ou não o predomínio da lei do valor na
URSS. A lei do valor só pode existir havendo um alto grau de
desenvolvimento da divisão social do trabalho e com isso provocar a
separação entre os ramos de produção e entre produtores e
consumidores - ou seja, superação da produção de auto-subsistência,
o que significa que o produtor deixa de produzir para o seu próprio
consumo e passa a produzir para vender o produto no mercado - e com
isso criar a necessidade de troca de mercadorias. Isto significa
que, para se implantar o modo de produção capitalista, estas
condições precisam ser complementadas com a separação entre
produtores e meios de produção. Essa separação provoca a
necessidade dos produtores de venderem sua força de trabalho em
troca de um salário com o qual garantirá sua reprodução. Como a
força de trabalho recebe um salário que é inferior ao que foi
produzido se cria um excedente, a mais-valia, que é apropriado pelo
capital. Isto quer dizer que a força de trabalho é uma mercadoria
sui generis, pois só ela produz mais-valor e este ao ser apropriado
pelo capital cria sua reprodução ampliada. Para que essa reprodução
ampliada de capital se realize é necessário não só a produção de
mais-valia mas também a competição entre capitais individuais, pois
esta obriga a burguesia a reinvestir cada vez mais em meios de
produção. Estas condições e premissas da produção capitalista estão
presentes na URSS, onde o desenvolvimento da divisão social do
trabalho criou uma ampla separação entre os ramos de produção,
entre produtores e consumidores e, finalmente, entre os
trabalhadores e meios de produção. Isto, por sua vez, verá o
trabalho assalariado, a produção da mais-valia, e conseqüentemente,
a acumulação de capital. O único dos elementos acima citados que se
poderia argumentar que não existe na URSS é a competição entre
capitais individuais, pois lá a propriedade é monopólio do Estado.
Mais isto não é correto e demonstraremos isto a seguir.
A
reprodução ampliada do capital é impulsionada pelo mercado mundial
e pelas relações comerciais e monetárias internas da URSS. Essas
relações nunca deixaram de existir: já existia no período do
"comunismo de guerra" e se aprofundou com a NEP (Nova
Política Econômica) e esta criou, no seu final, as condições
necessárias para sua reprodução na economia estatizada (17).
A "estatização forçada" criou os Kolkhozes (que deveriam ser
cooperativas) como um forma de propriedade estatal. O Estado recebe
dos Kolkhozes renda da terra em forma de altos impostos. Eles são
dirigidos pela burocracia Kolkhoziana que repassa os impostos para
o Estado e retira privilégios e rendimentos superiores aos do
campesinato. Estes "rendimentos superiores" são justificados pelo
"trabalho por rendimento" que calcula as tarefas de acordo com o
grupo ao qual se pertence (burocracia, agrônomo, tratorista ou
camponês). A burocracias kolkhoziana se inscreve na nomenclatura,
ou seja, é nomeada pela burocracia estatal, sendo, portanto,
intocável.
Os
camponeses possuem, entretanto, suas pequenas parcelas de terrenos
individuais atrás de suas casas. Eles se alimentam através do
trabalho nestes terrenos e também a maior parte da população urbana
apesar de serem apenas 3% das terras cultiváveis. Estes produtos
são vendidos pelos camponeses diretamente à população criando uma
forma de comércio livre.
As
diferenças entre as fazendas estatais (Sovkhozes) e as empresas
"ditas" cooperativas (Kolkhozes) são: a) A forma de remuneração nas
primeiras é realizada através do salário e nos Kolkhozes através do
"trabalho efetuado", embora juridicamente em 1966 a remuneração
passasse a ser igual a dos Sovkhozes; b) As parcelas individuais de
terra existentes nos Kolkhozes e inexistentes no Sovkhozes; e c) Os
Sovkhozes repassam para o Estado o excedente em forma de lucros e
os Kolkhozes em forma de impostos.
O chamado
"mercado negro" urbano e a reprodução das pequenas propriedades
urbanas são outras formas de expressão das relações comerciais e
monetárias na URSS.
Quando há
qualquer troca entre os Sovkhozes e o Estado ou entre os este e os
Kolkhozes se manifesta a lei do valor. Quando as unidades de
produção (as empresas estatais) trocam meios de produção entre si
também atua a lei do valor. Isto é possível porque cada empresa tem
"autonomia financeira". As empresas estatais possuem seus fundos
próprios; compra e venda e seus meios de produção, matérias-primas,
combustíveis, etc.; possuem autonomia para decidir o número de
assalariados e a forma de contrata-los e dispensa-los; e se
auto-financiam através de suas receitas e do sistema bancário.
Neste
sentido, as empresas estatais funcionam como capitais individuais.
As trocas entre as "cooperativas", as fazendas estatais, as
unidades de produção aliadas com a produção mercantil da pequena
propriedade camponesa e urbana juntamente com o mercado negro
demonstram as várias formas de manifestação das relações comerciais
e monetárias na URSS.
Essa
autonomia das unidades de produção, aliada às demais formas de
relações comerciais e monetárias, torna necessário a comparação
entre as mercadorias para medir o tempo de trabalho socialmente
necessário. A divisão social do trabalho expressa aí cria a
necessidade de submissão à lei do valor. Cria-se também, uma
competição embora num nível bem inferior em comparação com o
capitalismo privado. A dinâmica da acumulação de capital sob o
Capitalismo de Estado é impulsionada principalmente pela competição
internacional que se realiza no mercado mundial.
A lei do
valor e a acumulação de capital "soviéticos" estão submetidos
ao mercado mundial. Tanto a produtividade do trabalho, que é
necessariamente comparada ao mercado mundial, quanto a decisão na
produção nos meios de produção. estão, devido ao comércio externo
estão na URSS, condicionadas pelo mercado mundial. no seu comércio
externo, as suas trocas com o COMECON representavam 54% e as com os
países imperialistas do Ocidente 31% enquanto que as efetuadas com
os países capitalistas 13%.
O capital
internacional também interfere internamente na economia
"soviética", pois existem diversas empresas estrangeiras na URSS
como a General Motors, Shell, Coca-Cola, Mitsubishi, Krupp, Basf,
Control Data, Brown Boveri, Exxon, Union Carbide, etc, etc. Estas
empresas atuam na URSS na forma de co-produção industrial. A
co-produção industrial se baseia num acordo em que a URSS assume o
papel de ceder força de trabalho e instalações enquanto que os
países imperialistas do Ocidente fornecem máquinas, técnicas de
gestão, licenças, etc. Nestas empresas, a mais-valia é repartida
entre a burocracia "soviética" e o capital internacional. Além
desse tipo de acordo existem inúmeros outros isto torna necessário
a presença de bancos estrangeiros na URSS.
A URSS não
só explora os camponeses soviéticos como também avança sobre outros
países realizando uma verdadeira expansão imperialista. A fase
imperialista do Capitalismo de Estado russo é demonstrada tanto
através do "velho imperialismo" (dominação político-militar
direta), como ocorreu no Afeganistão, quanto através da exploração
dos países do Leste Europeu no comércio internacional. Existe entre
a URSS e o Leste Europeu uma "troca desigual" e o exemplo da
Hungria deixa isso bem claro: "no caso da Hungria, enquanto esta,
de 16 Rublos passou a pagar 36 par tonelada de petróleo importado
da URSS, o que significou o aumento de 131% (na verdade, 125% -
NSV), os preços das máquinas que ela vendeu à URSS tiveram um
aumento de apenas 33%" (18). A URSS se não bastasse isso, implantou
no Leste Europeu "empresas mistas" com 50% de capital soviético e
50% de capital nacional. Isso além das empresas que foram cedidas
pela Alemanha Oriental como pagamentos de indenização pelas
destruições da II Guerra Mundial e se tornaram propriedades
soviéticas (19).
A luta de
classes na União Soviética depois da II Guerra Mundial revela, após
um breve período de "reconstrução nacional" um processo de
acirramento crescente. Os problemas sociais como, por exemplo, a
crise da agricultura, a questão da habitação, os desperdícios
produzidos pela planificação burocrática, se acumulavam e criavam
enormes conflitos sociais. A própria classe dominante,
principalmente após a morte de Stálin, sempre estava envolvida em
lutas inter-burocráticas visando a ascensão ao cume da pirâmide do
poder ou então buscando uma repartição mais favorável da
mais-valia. Cabia ao partido "comunista" mediar as lutas
inter-burocráticas e através do Estado manter a unidade da classe
dominante. A repressão era o meio mais eficiente e utilizado para
reproduzir sua dominação, tal como expressa nos campos de
concentração (GULAGS) e nos hospitais psiquiátricos, pois, como
escreveu um soviético dissidente, a oposição era uma "nova doença
mental na URSS" (V. Bukowski). Mas esta repressão contava com o
reforço da dominação ideológica realizada pelos aparelhos culturais
e educacionais do Estado soviético. Nas instituições educacionais
havia o ensino obrigatório do chamado "marxismo"- leninismo, a
ideologia oficial do capitalismo estatal russo. Entretanto, estes
aparelhos culturais e educacionais também eram garantidos pela
repressão, pois não havia liberdade de imprensa e de produção
científica, artística e cultura. O monopólio estatal dos meios de
produção cultural produziu, conseqüentemente, o "monopólio" da
produção cultural.
Toda essa
repressão e controle tem como objetivo reproduzir as relações de
produção capitalistas na URSS. A resistência operária e camponesa
se expressavam, num primeiro momento, como luta de classes na
produção. Os camponeses dos kolkhozes, por exemplo, preferiam
produzir nas suas parcelas individuais de terras do que nos
kolkhozes e isto provocava uma baixa produtividade do trabalho. A
resposta da burocracia era a tentativa de submeter a produção
individual à exploração realizada através das trocas comerciais, o
que, por sua vez, gerava novos conflitos sociais. Nas fábricas, os
operários se encontram submetidos aos métodos tipicamente
capitalistas de controle da produção, por exemplo, o sistema
Taylor, e por isso apresentam também uma baixa produtividade do
trabalho. A burocracia tentou resolver a questão com os "incentivos
materiais" (idéia importada da Europa Ocidental) mas, como
demonstrou a História, fracassou totalmente. A repressão
generalizada na sociedade russa acontecia justamente por causa do
descontentamento e resistência crescente das classes exploradas. A
burocracia utilizava como "arsenal ideológico" as acusações aos
dissidentes de "contra-revolucionárias", "loucos", "agentes do
imperialismo", etc., para justificar a repressão. As burocracias
das repúblicas "soviéticas" utilizavam-se das tradições
nacionalistas, acirradas pela opressão russa, para incentivar
mobilizações de trabalhadores como o objetivo de pressionar Moscou
para conseguir uma repartição mais favorável da mais-valia.
A
resistência operária na produção atinge níveis elevados quanto a
sua luta contra o aumento da produtividade e da extração de
mais-valia chega ao ponto de apelar para as greves e se exige
melhores salários, pois isto significaria uma diminuição na
extração de mais-valia por quanto isso não fosse acompanhado pelo
aumento da produtividade ou da jornada de trabalho, o que
efetivamente não ocorria. A resistência operária fora do local de
produção se expressa na formação de sindicatos independentes e de
organizações clandestinas de esquerda. A burocracia reage,
obviamente, com a repressão crescente e generalizada na sociedade
russa.
Assim, a
luta de classes na União Soviética apresentava uma onda de
"mais-repressão" crescente tanto no campo quanto na cidade. A
burocracia estatal buscava centralizar ainda mais os Kolkhozes com
medo das tendências auto gestionárias dos camponeses e reprimir
todas as formas de organizações não-estatais e manifestações
políticas nas cidades com medo da auto-organização da classe
operária. No entanto, o descontentamento e a luta dos trabalhadores
para transformar suas condições de existência e, conseqüentemente,
abolir o capitalismo estatal russo e construir a autogestão social,
revelam as contradições da sociedade soviética que mais cedo ou
mais tarde provocarão o rompimento com esse "mundo
concentracionário".
Antes da
crise da URSS e do Leste Europeu criticar o chamado "socialismo
real" era sinal de "trotskismo" ou "direitismo". Mas, na realidade,
como disse F. Claudim, para a direita e o imperialismo "o que lhes
interessa conservar é o equívoco colossal de que aquilo é
socialismo. Que argumento melhor para comprometer o ideal
socialista diante das classes trabalhadoras e dos intelectuais do
Ocidente? Na verdade, quem faz o jogo da direita são aqueles que
coincidem com ela em conceber o diploma de socialismo às ditaduras
totalitárias do leste"(20).
NOTAS
1- PANNEKOEK, A. A LUTO OPERÁRIA. Coimbra, Centelha, 1977,
pág. 73.
2- ROSEMBERG, A. HISTÓRIA DO BOLCHEVISMO. B. Horizonte, Oficina de
Livros, 1989, pág. 275.
3- Cit. por: JEROME, W & BUICH, A. CAPITALISMO DE ESTADO
SOVIÉTICO? HISTÓRIA DE UMA IDÉIA. In: ROCHER, R. e outros. A
Natureza da URSS. Porto, Afrontamento, 1977, Pág. 219.
4- BARROT, J. O MOVIMENTO COMUNISTA. Lisboa, Etc., 1975, Pág.
258.
5- Cf. BETTELHEIM, C. A LUTA DE CLASSES NA UNIÃO SOVIÉTICA. Vol. 1,
Segunda Edição, R. J., Paz e Terra, 1979.
6- Cf. BERNARDO, João. PARA UMA TEORIA DO MODO DE PRODUÇÃO
COMUNISTA. Porto, Afrontamento, 1975.
7- Cf. LÊNIN, W. QUE FAZER? S. P., Hucitec, 1988.
8- Cf. VOLIN. A REVOLUÇÃO DESCONHECIDA (1). S. P., Global, 1980,
Trótski, L. A Revolução de 1905. S. P., Global, S/D.
9- Cit. por: MEDVEDEV, R. ERA INEVITÁVEL A REVOLUÇÃO RUSSA? R. J.,
Civilização Brasileira, 1978, Pág. 49.
10- Cf. BRINTON, M. OS BOLCHEVIQUES E O CONTROLE OPERÁRIO. Porto,
Afrontamento, 1975.
11- Cr. MACHNÓ, N. A "REVOLUÇÃO" CONTRA A REVOLUÇÃO. S. P.,
Cortez, 1988.
12- Cf. KOLLONTAI, A. A OPOSIÇÃO OPERÁRIA. 1920-1921, S. P.,
Global, 1980.
13- Cit. por: ARVON, H. A REVOLTA DE KRONSTADT. SP, Brasiliense,
1984, Pág. 43.
14- Geralmente se fala em "coletivização forçada" mas isto não é
correto, pois, "um kolkhoze, ou aquilo que deveria ser uma
propriedade coletiva, é um organismo que, pela sua própria
natureza, difere essencialmente de uma associação cooperativa. Na
realidade um kolkhoze é um organismo estatal que tende a
transformar os camponeses em operários agrícolas que cumprem suas
tarefas por medo de sanções penais" (METT, Ida. O CAMPONÊS RUSSO
DURANTE E APÓS A REVOLUÇÃO).
15- MARX, K. A MISÉRIA DA FILOSOFIA. Segunda Edição, SP, Global,
1989, Pág. 143.
16- "Em certo estágio de desenvolvimento, as forças produtivas
materiais da sociedade entram em contradição com as relações de
produção existentes ou, o que é a sua expressão jurídica, com as
relações de propriedade no seio das quais se tinham movido até
então. De forma de desenvolvimento das forças produtivas, estas
relações transformam-se no seu entrave. Surge então uma época de
revolução social. A transformação da base econômica altera, mais ou
menos rapidamente, toda a imensa superestrutura. Ao considerar tais
alterações é necessário sempre distinguir entre a alteração
material - que se pode comprovar de maneira cientificamente
rigorosa - das condições econômicas de produção, e as formas
jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em
resumo, as formas ideológicas pelas quais os homens tomam
consciência deste conflito, levando-o as suas últimas
consequências" (MARX, K. CONTRIBUIÇÃO À CRÍTICA DA ECONOMIA
POLÍTICA. Segunda Edição, SP, Martins Fontes, 1983, Págs. 24 -
25).
17- Cf. BETTELHEIM, C. A LUTA DE CLASSES NA UNIÃO SOVIÉTICA. VOL
II, RJ, Paz e Terra, 1983.
18- TRAGTENBERG, M. REFLEXÕES SOBRE O SOCIALISMO. Terceira Edição,
SP, Moderna, 1989, Pág. 45.
19- Cf. BORSI, E. A FORMAÇÃO DAS DEMOCRACIAS POPULARES NA EUROPA.
Lisboa, Avante! 1981.
20- CLAUDIM, F. A OPOSIÇÃO NO "SOCIALISMO REAL". RJ, Marco Zero,
1983, Pág. 297.
Artigo publicado originalmente em Revista Ruptura, ano 1, num. 1,
Maio de 1993.