MANIFESTO DO MOVIMENTO
AUTOGESTIONÁRIO
O Movimento Autogestionário é um movimento
político autogerido que busca ser expressão teórica e política do
movimento revolucionário do proletariado. Ele não possui interesses
próprios, mas pretende tão-somente ser uma forma de expressão dos
interesses de classe do proletariado. Em períodos históricos
não-revolucionários, a classe revolucionária de nossa época, o
proletariado, não consegue forjar uma expressão política e teórica
autêntica de proporções quantitativas elevadas; nos períodos
revolucionários, o proletariado realiza sua autonomização e se
liberta dos seus falsos representantes (partidos, ideologias,
etc.), passando a autogerir sua luta e começando a construir a
autogestão social. O Movimento Autogestionário busca, em um período
não-revolucionário, expressar os interesses históricos do
proletariado e colaborar com a sua autonomização e assim inaugurar
um período de revolução social.
O capitalismo mundial e o brasileiro caminham para uma rápida
deterioração e, embora não devemos subestimar a sua capacidade de
prolongar sua vida e adiar suas crises, os próximos anos deverão
ser marcados por uma movimentação revolucionária ascendente. O
capitalismo realiza um desenvolvimento acelerado das forças
produtivas e isto é, ao mesmo tempo, sua maior necessidade e sua
principal contradição. O desenvolvimento das forças produtivas
aumenta a composição orgânica do capital, ou seja, os gastos com os
meios de produção tornam-se cada vez maiores, devido ao valor
incorporado neles pela força de trabalho ser cada vez maior. É por
isso que nos países capitalistas superdesenvolvidos, com o seu alto
grau de desenvolvimento tecnológico, se realiza uma busca
incessante de aumento de produtividade, ou seja, de produção de
mais-valor relativo. Entretanto, apenas o aumento de produtividade
não supera tal contradição, pois a mais-valor relativo produzido
também será incorporado nos meios de produção e reforçará,
conseqüentemente, a tendência à queda da taxa de lucro médio.
A solução encontrada pelo capitalismo superdesenvolvido é deslocar
os investimentos em meios de produção para os bens de consumo ou
para a expansão dos serviços. Após a segunda guerra mundial e a
destruição em massa das forças produtivas provocadas por ela,
aumentou-se a intervenção do estado na economia, mas esta solução
vem sendo suplantada pela expansão da produção de meios de consumo
e do setor de serviços dominados pela iniciativa privada. Mas a
expansão da produção de meios de consumo cria a necessidade de
expansão do mercado consumidor. Busca-se, a partir disto, integrar
as populações das economias capitalistas subordinadas no circuito
de consumo e aumentar a capacidade consumidora das pessoas, tal
como na estratégia de diminuir o tempo de vida útil dos produtos e
na produção de bens descartáveis.
O capitalismo superdesenvolvido negocia com as economias
subordinadas produtos da mais alta qualidade tecnológica, incluindo
meios de produção, em troca de matérias-primas e meios de produção
menos sofisticados, tal como determinado pela divisão internacional
do trabalho. Lembrando que a produção de mais-valor relativo é
elevadíssima no capitalismo superdesenvolvido, mas que a composição
orgânica do capital também acompanha esta elevação, vemos que estes
países para se manterem precisam realizar uma transferência de
valor dos países subordinados para os países imperialistas. É no
comércio internacional que se dá o grosso da transferência de valor
que sustenta as economias imperialistas. As empresas monopolistas
transnacionais criadas a partir da necessidade de exportação de
capitais são outra fonte de transferência de mais-valor, ao lado da
dívida externa, através da remessa de lucros, royalties, etc.
A exportação de capitais continua sendo uma necessidade do
capitalismo contemporâneo devido a monopolização crescente da
economia. A acumulação de capital dos grupos monopolistas faz com
que estes ultrapassem os limites das fronteiras nacionais por causa
do barateamento dos custos de produção e da integração de um
mercado consumidor maior no circuito do consumo.
As conseqüências disto são múltiplas. A expansão da produção de
meios de consumo e dos serviços produz uma burocratização e
mercantilização crescente das relações sociais e isto interfere na
luta operária. Por um lado, cria-se uma burocratização das próprias
organizações criadas para representar a classe operária e, por
outro, cria-se uma mercantilização que favorece a corrupção de
indivíduos da classe trabalhadora e integra-os na sociedade
capitalista. Por conseguinte, esta expansão produz efeitos não só
econômicos, mas também políticos e ideológicos. Além disso, há uma
deterioração da qualidade de vida (vista não do ponto de vista da
ideologia burguesa, ou seja, levando em consideração o índice de
consumo ou o nível de renda, mas sim do ponto de vista do bem estar
físico e mental e de uma sociabilidade não-repressiva) provocada
por isto e também pela destruição ambiental. Se o movimento
operário assume uma posição mais moderada, os demais movimentos
sociais (das mulheres, negro, ecológico, estudantil, etc.)
freqüentemente esboçam uma radicalização, expressando a resposta
das massas as novas contradições criadas pelo desenvolvimento
capitalista.
Acontece que o capitalismo superdesenvolvido encontra-se no limiar
de uma nova grande crise. Esta vem se esboçando e a formação de
blocos econômicos é apenas uma resposta a esse despontar da crise.
Esta, ao chegar, deve produzir uma nova autonomização da classe
operária e abrir espaço para a Revolução Social. A crise do
capitalismo de estado russo e a desagregação do bloco do
capitalismo estatal também reforça a tendência de desencadeamento
de uma crise mundial e, concomitantemente, de uma revolução
mundial.
O capitalismo brasileiro vem se reproduzindo de forma subordinada
ao capitalismo superdesenvolvido. O desenvolvimento subordinado
brasileiro convive com um período de rearticulação da divisão
internacional do trabalho que irá mudar apenas a forma como ele
servirá de apoio ao desenvolvimento capitalista mundial. O Brasil
entrou pela via de desenvolvimento capitalista de forma
retardatária e por isso se encontrou em desvantagem e atraso em
relação aos países que entraram por esta via anteriormente, o
capitalismo retardatário brasileiro encontra-se em dependência em
relação ao capitalismo superdesenvolvido devido ao seu atraso
tecnológico e sua acumulação incipiente de capital. A sua entrada
no mercado mundial ocorreu, desde a época do modo de produção
escravista colonial, de forma subordinada e em situação
desfavorável na divisão internacional do trabalho. A entrada de
capital estrangeiro e a aliança da burguesia brasileira com a
burguesia monopolista internacional expressa no estado capitalista
brasileiro são os meios responsáveis pela transferência de valor do
Brasil para o exterior.
A enorme transferência de mais-valor para o exterior, sob as
diversas formas em que isto ocorre, deixa a economia brasileira em
uma situação de dificuldades econômicas constantes. Apesar disto, a
luta operária no Brasil não consegue atingir um nível elevado. A
péssima situação em que se encontram as classes exploradas no
Brasil não foram suficientes para o desencadeamento de uma luta de
massas que coloque em xeque o modo de produção capitalista.
O estado capitalista busca integrar as massas utilizando como
principal suporte a democracia burguesa, que é apresentada como o
palco onde se desenrola a luta política. A canalização da luta
política rumo a democracia burguesa tem como objetivo desviar as
classes exploradas da luta política direta para a luta eleitoral
realizada por seus “representantes” - corrompidos e integrados na
sociedade capitalista - e reforça, assim, a burocratização e
integração das forças políticas na sociedade burguesa. O estado
capitalista, juntamente com as outras instituições burguesas,
utilizam outros recursos para integrar, corromper e burocratizar as
organizações políticas e movimentos sociais.
É nesta situação que devemos encaminhar nossas lutas. As
“esquerdas” tradicionais estão integradas na sociedade burguesa e
são mais um ponto de apoio para a dominação capitalista. Qual é,
nesta situação, o papel do Movimento Autogestionário? Cabe ao
Movimento Autogestionário buscar acelerar o processo revolucionário
e criar as condições favoráveis para a vitória da classe operária
quando explodir uma situação revolucionária. Deve-se, portanto,
radicalizar e dar um caráter de classe às lutas políticas na
sociedade e, ao mesmo tempo, criar no interior da sociedade
capitalista centros de contra-poder que inaugurem uma nova
correlação de forças que em uma situação revolucionária sirvam de
ponto de apoio para a luta operária.
Esses centros de contra-poder devem ser instaurados em todos os
lugares onde se expressam a luta de classes (fábricas, escolas,
bairros, etc.), o objetivo da formação desses centros de
contra-poder é fortalecer a posição da classe operária em relação
ao poder do capital e do estado burguês. Outra tarefa é realizar
uma luta constante contra a ideologia dominante. A luta cultural na
sociedade capitalista contemporânea torna-se cada vez mais
importante e, conseqüentemente, a criação de meios alternativos de
produção e reprodução das idéias revolucionárias se torna
necessária.
Portanto, a estratégia revolucionária na época atual apresenta como
objetivo fundamental o aceleramento do processo revolucionário e a
criação de condições favoráveis para a vitória do proletariado com
o desencadeamento deste processo. Os meios para se realizar isto é
uma intensa luta cultural e a formação de centros de contra-poder
no interior da sociedade capitalista. Mas é necessário, além disso,
saber articular a estratégia global do movimento operário com as
estratégias específicas que devem ser elaboradas para cada um
movimento social e local onde se realiza a luta de classes. No
atual estágio de desenvolvimento da sociedade brasileira é
necessário elaborar estratégias específicas para o movimento
camponês, ecológico, negro, das mulheres, estudantil, os movimentos
sociais urbanos, etc., e articulá-las com o movimento operário e
sua estratégia global.
Estas estratégias específicas e estes movimentos sociais devem se
articular com a estratégia global do movimento operário e
juntamente com as forças revolucionárias formar um bloco
revolucionário. A classe revolucionária de nossa época, o
proletariado, juntamente com as classes e frações de classes
potencialmente revolucionárias (campesinato, lúmpem-proletariado,
etc.), os movimentos sociais(ecológico, negro, das mulheres,
estudantil, etc.) e as forças revolucionárias, formam a composição
social do bloco revolucionário que se complementa com o projeto
político comunista, a autogestão social. Esse bloco revolucionário
deve elevar o nível da luta de classes através do enfrentamento com
o capital colocando um projeto alternativo de sociedade e
radicalizar as lutas sociais, além de formar centros de
contra-poder no interior da sociedade capitalista e com isso
reforçar a luta operária.
Entretanto, deve-se deixar claro qual é a relação que o Movimento
Autogestionário deve ter com as instituições burguesas. O estado
capitalista é a principal instituição burguesa e é ele que busca
regularizar e controlar (através de leis, repressão,
burocratização, etc.)todas as outras instituições existentes na
sociedade capitalista. A tese da luta pela conquista do poder de
estado é contra-revolucionária, pois o estado burguês segue a
dinâmica do modo de produção capitalista, além de ser uma
organização burocrática criada com o objetivo de sustentar a
dominação burguesa. O estado não é um instrumento neutro que pode
ser utilizado por qualquer classe para atender interesses
diferentes. Ao contrário, ele é uma instituição burguesa que foi
criada para atender os interesses de uma classe específica, a
burguesia, e por isto só pode servir aos interesses dela.
Ao recordarmos o princípio básico do movimento comunista: “a
emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios
trabalhadores”, recordamos, ao mesmo tempo, que a libertação do
proletariado não pode ser realizada por um grupo de golpistas que
assumem o poder do estado burguês e doam a emancipação aos
trabalhadores. São estes que, na sua luta direta e cotidiana,
construirão uma nova sociedade e as instituições correspondentes a
esta, a autogestão social. Isto significa que a luta revolucionária
do proletariado não é pela conquista do poder do estado e sim pela
sua destruição e pela construção da autogestão social.
O estado busca controlar e regularizar todas as outras instituições
sociais para dar-lhes um caráter burguês: as associações, os
sindicatos, os partidos políticos, as escolas, etc., e também busca
legitimar a sociedade capitalista e a si mesmo através da
democracia burguesa. A democracia representativa tem como objetivo
não só legitimar a dominação burguesa como também busca canalizar
todas as lutas políticas e, assim, anular o seu caráter de classe e
revolucionário. A contestação e a luta operária é
institucionalizada (através da “representação”, embora tal
“institucionalização” seja limitada) e perde seu caráter de classe,
legitimando ainda mais a dominação burguesa.
Portanto, a luta contra o estado capitalista é, ao mesmo tempo, uma
luta contra a democracia burguesa. Todos os partidos políticos que
elegem a democracia burguesa como palco da luta política assumem um
caráter burguês, tal como deixa claro os exemplos históricos. O
estado capitalista busca integrar os partidos políticos na
sociedade burguesa através das regras da democracia representativa
inscritas nas leis burguesas que regularizam o sistema parlamentar,
o sistema eleitoral e o sistema partidário. Além das condições
legais de participação na democracia burguesa, existem as condições
determinadas pelas relações de produção capitalistas que colocam a
necessidade de utilização do poder econômico, propaganda de massas,
etc. A conjugação destes dois fatores coloca a democracia burguesa
como o lugar de disputa de frações da classe dominante que serve
apenas para legitimar a dominação burguesa.
Por conseguinte, a participação ou não-participação na democracia
burguesa deve estar subordinada aos interesses históricos do
proletariado. Se, em um determinado momento histórico, a
participação puder colaborar com a luta direta dos trabalhadores,
ela deve ser realizada. Entretanto, como é raro e difícil a
democracia burguesa servir para o desencadeamento da luta operária,
a posição da esquerda revolucionária deve ser combatê-la.
Quanto às outras instituições burguesas, elas também devem ser
combatidas e algumas (escolas e universidades, por exemplo) devem
ser consideradas como palco de luta pela formação de contra-poderes
mas sem perder de vista que elas continuarão burguesas, ou seja, a
formação de contra-poderes não muda o caráter de classe mas apenas
inaugura uma nova correlação de forças no seu interior que destrói
sua eficiência e serve de apoio ao combate dos trabalhadores na
sociedade burguesa. Isto significa que discordamos da tese
reformista que afirma ser possível haver uma “dualidade de poderes”
em períodos não-revolucionários. O duplo poder só surge em períodos
revolucionários e os contra-poderes formados poderão acelerar o
processo revolucionário e com o desenvolvimento de tal processo
surgirão poderes alternativos e aí sim surge a dualidade de
poderes. A dinâmica das relações de produção capitalistas e a ação
do estado burguês impedem a existência de uma dualidade de poderes
em períodos não-revolucionários e aderir a tal tese é sucumbir ao
reformismo.
A estratégia global do movimento operário tem como ponto
fundamental a luta de classes na produção. É no local de produção
que se dá a exploração dos operários e a valorização do capital. É
no local de produção que se encontra a fonte do dominação do
capital e sua negação. As diversas formas de resistência dos
trabalhadores nas unidades de produção contra a exploração e a
opressão dos métodos capitalistas de trabalho devem ser reforçadas
até atingir o seu ponto máximo de radicalidade: a greve de massas.
O desencadeamento da greve de massas deve receber o apoio das
forças revolucionárias e de todos os movimentos sociais. A greve de
massas deve generalizar-se e tornar-se greve nacional e deve
radicalizar-se tornando-se greve de ocupação ativa e assim
implementar a autogestão nas fábricas, ou seja, a dualidade de
poderes. Neste momento, a guerra civil oculta transforma-se em
guerra civil aberta e expande-se a formação dos coletivos de
autogestão social, os conselhos de fábricas, conselhos de bairros,
etc., e com o desencadeamento deste processo revolucionário
coloca-se em prática novas relações sociais que são expressão de
uma nova sociedade. O fim da guerra civil aberta ocorre quando se
generaliza a autogestão e se destrói o poder burguês expresso no
estado capitalista. A greve de ocupação ativa, que instaura a
autogestão nas fábricas e empresas, inaugura novas relações de
produção e a destruição do estado capitalista e isto significa a
superação do principal aparelho de reprodução das relações de
produção capitalistas e da contra-revolução.
Portanto, a estratégia global do movimento operário é acirrar as
lutas nas fábricas e empresas, enquanto os outros movimentos
sociais buscam reforçar suas posições em outros locais de lutas
sociais, até desencadear a greve de massas, a autogestão e a
formação de conselhos revolucionários.
As tarefas do Movimento Autogestionário e de todos os grupos
revolucionários, são, no período revolucionário, as seguintes:
- Defender a autonomização da classe operária e combater a
burocratização sob quaisquer circunstâncias;
- Incentivar a autogestão e a formação de conselhos revolucionários
e combater o estado capitalista e todas as organizações (inclusive
os partidos de “esquerda” ou “revolucionários”) burocráticos que
queiram dirigi-los;
- Lutar pela coletivização e autogestão dos meios de produção,
inclusive no campo, combatendo qualquer proposta “distributivista”
ou burocrática;
- Desencadear uma intensa luta por uma revolução cultural visando
colaborar com uma produção cultural coerente com as novas relações
sociais, combatendo, portanto, o racismo, o sexismo, etc.
- Oferecer apoio ao desencadeamento e vitória do movimento
revolucionário em todos os países do mundo.
Com o final do processo revolucionário e com a implantação da
autogestão social, o Movimento Autogestionário se auto-extinguirá e
a participação dos seus militantes ocorrerá nos coletivos de
autogestão social.
MOVIMENTO AUTOGESTIONÁRIO
Goiânia, 30 de março de 1994.